Como é que as pessoas viviam no passado?
Na Idade Média, a vida cotidiana era marcada por práticas de higiene e costumes que hoje nos parecem impensáveis.
A falta de tecnologia e o desconhecimento sobre questões sanitárias geravam situações insalubres que, no entanto, eram comuns para as pessoas da época.
Não existiam escovas de dente, perfumes, desodorantes ou papel higiênico.
A higiene pessoal era quase inexistente, e muitos dos costumes eram moldados pela escassez de recursos e pelo medo do frio, que muitas vezes impedia as pessoas de tomarem banhos.
Excrementos humanos, por exemplo, eram frequentemente jogados pelas janelas dos palácios, criando um ambiente de imenso desconforto e maus odores.
Nas grandes festas, a cozinha dos palácios podia preparar banquetes para até 1500 pessoas, mas com a mínima preocupação com a higiene.
Embora a comida fosse deliciosa, o odor era insuportável, tanto por conta do calor intenso quanto pela falta de cuidados com a limpeza das pessoas e do ambiente.
No entanto, o cheiro dos corpos humanos não era causado apenas pelo calor, mas sim pela total falta de práticas de higiene, principalmente nas partes íntimas, que eram de certa forma "encobertas" pelas saias volumosas.
Essas saias, feitas com a intenção de esconder a sujeira e os odores, eram tão largas e espessas que chegavam a ser um escudo contra os maus cheiros que exalavam das pessoas, principalmente das mulheres.
A falta de água corrente, que era rara e muitas vezes inexistente nas cidades, também dificultava a prática do banho.
Em um período de temperaturas extremamente baixas, as pessoas evitavam tomar banhos, já que a água quente era escassa e o frio cortante dificultava qualquer tentativa de higiene regular.
Apenas os nobres tinham o privilégio de contar com lacaios e serviçais para abanar e afastar os mosquitos, mas o desconforto era inevitável.
Os mais ricos conseguiam, até certo ponto, manter alguma fachada de limpeza, mas para a maioria da população, o cheiro e a sujeira eram uma constante.
Em locais como o palácio de Versalhes, que era uma maravilha arquitetônica, os jardins belíssimos eram mais do que um local para passeio e contemplação: serviam também como banheiros improvisados durante as festas reais.
Não havia banheiros como conhecemos hoje, e o campo ou os jardins acabavam se tornando lugares usados por todos.
Além disso, o ambiente festivo também carecia de conforto, pois não havia instalações adequadas para lidar com o imenso número de convidados e a falta de cuidados com a higiene pública.
O período medieval também viu o surgimento de um costume curioso relacionado ao casamento.
Como o primeiro banho do ano era tomado apenas em maio, as pessoas só ficavam "suportáveis" para um evento social como um casamento em junho, quando o odor já era tolerável para a sociedade.
As noivas, por sua vez, carregavam buquês de flores como uma tentativa de disfarçar o cheiro do corpo e da boca, criando a tradição do buquê de noiva que persiste até hoje.
A falta de acesso à água limpa e ao conforto básico afetava também os banhos, que eram um verdadeiro ritual.
As pessoas tomavam banho em uma única banheira, e, como a água não era trocada, o chefe da família, ou o mais velho, tinha a honra de entrar primeiro.
Depois dele, os outros membros da família tomavam banho na água suja, e os bebês, que eram os últimos a tomar banho, tinham que encarar uma água cada vez mais impura e suja.
Enquanto isso, nas casas mais simples, as vigas de madeira que sustentavam os telhados das construções eram usadas como refúgio por cães, gatos, ratos e até besouros.
O calor do telhado fazia com que os animais se abrigassem ali, e, quando chovia, eram forçados a descer para o chão, criando um ambiente ainda mais insalubre.
Quanto à alimentação, as pessoas que podiam pagar por utensílios como chapas de lata se arriscavam a usá-las para armazenar alimentos, mas isso gerava problemas de saúde.
A reação do ácido dos alimentos, como o tomate, com o metal oxidado resultava em envenenamento, o que ocasionava muitas mortes, muitas vezes de forma silenciosa.
Além disso, as xícaras de lata eram comumente usadas para beber cerveja ou uísque, e a combinação desses líquidos com o óxido de estanho fazia com que algumas pessoas caíssem em um estado de sonolência profundo, sendo confundidas com mortas.
Na falta de cuidados adequados com a morte, uma prática incomum se desenvolvia.
Quando alguém era dado como morto, mas ainda respirava fracamente, o corpo era deixado na mesa da cozinha por alguns dias.
A família e os amigos se reuniam ao redor, comendo e bebendo, aguardando ver se o "falecido" acordava. Era uma espécie de espera pela prova de vida, em que, se o morto voltasse à vida, seria uma verdadeira surpresa.
Além disso, a falta de cemitérios e de espaço para enterrar todos os mortos obrigava a prática de reutilização dos caixões. Em algumas regiões da Inglaterra, os caixões eram abertos após algum tempo para que os ossos fossem removidos e colocados em ossários.
O túmulo, então, era usado novamente para outro corpo, o que resultava em uma prática macabra: ao abrir os caixões, muitas vezes eram encontrados sinais de arranhões nas tampas internas, indicando que a pessoa enterrada ainda estava viva no momento de seu sepultamento.
Para evitar que isso acontecesse, uma ideia um tanto quanto engenhosa surgiu: amarrar uma corda no pulso do falecido e ligá-la a uma campainha que ficava ao lado do túmulo.
Assim, caso o "morto" acordasse, o movimento de seu braço faria soar a campainha, alertando as pessoas para que o "salvassem" a tempo.
A expressão "salvo pelo gongo", que usamos até hoje para indicar uma situação de última hora, vem dessa prática medieval, onde alguém poderia ser literalmente salvo da morte prematura se conseguisse tocar a campainha antes de ser enterrado completamente.
A Idade Média, portanto, foi uma época marcada por dificuldades de higiene, pela ausência de cuidados com a saúde e pela morte que, em muitos casos, não era tratada de forma definitiva.
As pessoas viviam em um ambiente de incertezas e superstições, onde a morte e a vida se entrelaçavam de formas que hoje nos parecem estranhas e até macabras.
No entanto, esses costumes revelam uma época em que, apesar das adversidades, os seres humanos tentavam sobreviver da melhor forma possível, com as ferramentas e o conhecimento limitados que estavam à sua disposição.



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